🇧🇷 A Armadilha do Sonho: A crise da classe média e o novo endividamento no Brasil. Veja os dados da CNC, as causas e os 3 caminhos possíveis para sair da armadilha da dívida.

Como a Crise da Classe Média Alimenta o Novo Paradigma do Endividamento

Por: Carlos Santos



Apresento aqui uma análise que considero essencial para o entendimento do cenário econômico atual no Brasil, um país onde a ascensão social, muitas vezes, caminha lado a lado com a fragilidade financeira. Eu, Carlos Santos, tenho acompanhado de perto as estatísticas que desenham o mapa do endividamento nacional e, o que percebo, é que a classe média – antes vista como o pilar da estabilidade – se tornou o epicentro de uma nova e perigosa crise financeira. O acesso facilitado a crédito, a pressão por um padrão de vida inatingível e a ausência de educação financeira transformaram o que seria um sonho de consumo em uma armadilha de dívidas. A seguir, no Blog Diário do Carlos Santos, exploraremos como fatores estruturais e comportamentais combinam-se para redefinir o conceito de endividamento no contexto da classe média brasileira, tornando-o um problema sistêmico.




📉 O Fim da Ilusão de Estabilidade

O que define a classe média hoje não é mais a posse, mas a capacidade de contrair dívidas para manter uma ilusão de prosperidade. O sonho de consumo — a casa maior, o carro novo, a viagem internacional parcelada — é, na verdade, uma pressão social e econômica que força famílias a comprometerem uma fatia cada vez maior de sua renda. A estabilidade financeira foi substituída por uma corda bamba, onde a perda de emprego ou um gasto emergencial inesperado são suficientes para desequilibrar todo o orçamento. Esta dinâmica revela o novo paradigma: a dívida não é mais um recurso ocasional, mas um instrumento permanente de sobrevivência e manutenção social.


🔍 Zoom na realidade

O endividamento da classe média brasileira reflete uma complexa interação entre fatores macroeconômicos e o comportamento individual. Por um lado, temos um cenário de juros historicamente altos, inflação que erode o poder de compra e uma política de crédito que, embora acessível, é extremamente onerosa. Por outro lado, a sociedade impõe uma pressão mimética, acentuada pelas redes sociais e pelo marketing constante, que conduz ao consumo descolado da capacidade real de pagamento.


A ascensão à classe média nos últimos anos foi marcada pela rápida inclusão via crédito, e não necessariamente por um aumento sustentável da renda ou da produtividade. Quando a economia desacelera, o primeiro sinal de fragilidade aparece na incapacidade de honrar os compromissos assumidos. O cartão de crédito, que deveria ser uma ferramenta de conveniência, transforma-se no principal vilão, sendo o instrumento de endividamento mais utilizado pelas famílias, inclusive entre as classes A, B e C, onde 50% dos brasileiros de classe média e alta têm dívidas no cartão de crédito, segundo pesquisa da Nexus. Esse endividamento é uma resposta direta à necessidade de manter o status quo e as despesas correntes em um ambiente de renda estagnada ou crescente em ritmo lento.


📊 Panorama em números

Os dados mais recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) pintam um quadro alarmante do comprometimento financeiro das famílias brasileiras. Em junho de 2025, o percentual de famílias endividadas atingiu 78,4% (CNC). Este número, embora inclua todas as faixas de renda, evidencia um problema estrutural. O dado mais preocupante, no entanto, é o comprometimento da renda.

Segundo o Banco Central do Brasil (BCB) e dados compilados pela Febraban, o endividamento bancário das famílias, excluindo o crédito imobiliário, tem se mantido em patamares elevados. Em 2022, por exemplo, o comprometimento da renda com a dívida bancária atingiu 33,6% da renda anual, o maior nível da série histórica. Para o consumidor, isso significa que uma fatia substancial de seu salário é automaticamente dedicada a pagar parcelas, empréstimos e financiamentos, reduzindo drasticamente o capital disponível para o consumo essencial e para a formação de poupança.

No grupo de famílias com renda entre cinco e dez salários mínimos, a inadimplência também tem mostrado uma elevação preocupante, de 21,3% para 22,8% (CNC, dado de maio de 2025), indicando que a pressão financeira se intensificou justamente no coração da classe média. Os números mostram que o endividamento não é apenas um problema de quem tem baixa renda; é um desafio transversal que afeta a sustentabilidade de quem está na faixa intermediária, que tem acesso mais fácil ao crédito, mas se depara com as taxas de juros mais altas do mundo.


💬 O que dizem por aí

O discurso sobre a crise do endividamento frequentemente oscila entre a culpa individual e a responsabilidade sistêmica. Economistas e especialistas em finanças comportamentais apontam que, enquanto a taxa de juros básica no Brasil se mantém em patamares elevados, o crédito caro atua como um motor de endividamento.

  • Reinaldo Le Grazie (ex-diretor do BC): Ele alertou que a dívida pública do Brasil está entre as mais preocupantes do mundo, e que a política fiscal instável acaba por travar a queda da Selic. Taxas de juros elevadas são, portanto, um reflexo de uma gestão macroeconômica que penaliza o tomador de crédito e dificulta a vida de quem está endividado.

  • A Força do Consumo Mimético: A sociologia do consumo complementa a análise. O endividamento é, muitas vezes, uma resposta a estímulos sociais e à necessidade de pertencimento. A classe média se endivida para manter um padrão de vida que julga ser merecido ou necessário para sua inserção social, movida por vieses comportamentais como a ilusão de controle, onde o indivíduo superestima sua capacidade de gerenciar incertezas futuras ao assumir compromissos de longo prazo.

  • Educação Financeira: Há um consenso generalizado de que a ausência de educação financeira eficaz torna o cidadão vulnerável. O crédito não é renda, e a confusão entre esses conceitos é um dos principais combustíveis para o ciclo vicioso da dívida. O consumo é impulsionado sem o planejamento necessário para que o salário comporte a prestação, levando a uma crise financeira sem precedentes para milhões de famílias.


🧭 Caminhos possíveis

A superação do novo paradigma do endividamento da classe média exige ações em três frentes: macroeconômica, educacional e comportamental.

  1. Reforma Macroeconômica: A queda estrutural e sustentável da taxa de juros real do país é crucial. Isso passa por uma reestruturação das finanças públicas, controle da dívida do governo e garantia da sustentabilidade fiscal. Como o representante do setor bancário destacou, reestruturar as finanças públicas é condição essencial para o juro cair no país. A política fiscal precisa convergir para estabilizar o endividamento público.

  2. Inclusão da Educação Financeira: É imperativo que a educação financeira seja incorporada de forma prática e abrangente desde o ensino básico. Não se trata apenas de ensinar a poupar, mas de capacitar o cidadão a entender o custo real do crédito, a diferença entre crédito consignado e rotativo, e a elaborar um orçamento realista que preveja imprevistos.

  3. Mudança Comportamental: No âmbito individual, a saída passa pelo desapego ao consumo mimético. É vital que as famílias questionem a necessidade do consumo imposto e busquem um planejamento financeiro robusto. O primeiro passo é renegociar as dívidas mais caras (cartão de crédito e cheque especial) por linhas de crédito com juros mais baixos e, crucialmente, cortar o ciclo de dívida nova para pagar dívida velha.


🧠 Para pensar…

A crise do endividamento da classe média não é apenas uma questão de números frios; é um reflexo da desigualdade social e da fragilidade das políticas de inclusão. O que acontece quando uma parcela significativa da população que detém o poder de consumo tem sua renda comprometida em quase 30% ou mais com o pagamento de dívidas? A economia desacelera, a indústria sente a queda nos pedidos e o ciclo vicioso se fecha.

É preciso refletir sobre a qualidade da nossa ascensão social. O que é "viver melhor" se isso significa estar permanentemente sob a ameaça da inadimplência? Amartya Sen nos lembra que o desenvolvimento consiste na remoção das principais fontes de privação de liberdade. No Brasil de hoje, a dívida de alto custo se tornou uma dessas privações, restringindo as escolhas e as liberdades econômicas da classe média. O consumo impulsionado pelo crédito fácil e caro é uma miragem que leva à estagnação do bem-estar. A liberdade financeira só virá quando o planejamento superar o impulso.


📚 Ponto de partida

Para começar a reverter o quadro de endividamento, a prioridade absoluta deve ser a organização do orçamento e a renegociação estratégica. O ponto de partida é o mapeamento detalhado das dívidas, identificando aquelas com as maiores taxas de juros (o famoso "veneno").

É imprescindível buscar ativamente programas de renegociação, como o Desenrola, ou diretamente com as instituições financeiras. O objetivo principal não é apenas reduzir o valor da dívida, mas diminuir a taxa de juros, transformando a dívida de curto prazo (cartão, cheque especial) em dívidas de longo prazo mais baratas (crédito consignado, empréstimo pessoal com garantia). Uma vez que a dívida de juro alto é controlada, a família recupera a capacidade de poupar e de investir, ainda que em um nível modesto. A educação financeira, neste estágio, deixa de ser teoria e se torna prática essencial: criar um colchão de segurança para evitar que a próxima emergência volte a acionar o cartão de crédito.


📦 Box informativo 📚 Você sabia?

O panorama de endividamento revela uma disparidade notável entre as classes. Enquanto 81% das famílias com renda de até 3 salários mínimos estão endividadas, as famílias da classe A são a única segmentação onde mais da metade (52%) da população não tem nenhum tipo de dívida (Pesquisa da Nexus, set/2025).

Essa diferença sublinha que o acesso ao crédito no Brasil é perverso:

  • Para os mais pobres e a classe média baixa: o crédito é uma ferramenta de sobrevivência e de alto custo, comprometendo a maior parte da renda.

  • Para a classe mais alta: o crédito é uma ferramenta de investimento e alavancagem, com acesso a linhas de juros muito mais vantajosas.

Outro dado importante da Serasa (Fevereiro/2024) é que 72,04 milhões de brasileiros estavam em situação de inadimplência, sendo que as faixas etárias entre 41 e 60 anos e 26 a 40 anos representam a maior fatia da população com nome restrito. A crise de endividamento, portanto, atinge com maior intensidade a população em idade produtiva.


🗺️ Daqui pra onde?

O futuro da classe média brasileira dependerá de sua capacidade de fazer escolhas financeiras que priorizem o patrimônio real em detrimento do consumo aparente. Se o novo paradigma do endividamento for mantido, veremos uma erosão contínua do poder de compra e um aumento da dependência do crédito.

O caminho daqui para a frente deve incluir a busca por fontes de renda complementares e o investimento em capacitação profissional para aumentar a produtividade e, consequentemente, a renda. A solução não é apenas cortar gastos, mas aumentar o fluxo de entrada de capital. Se a crise de endividamento é a manifestação de um modelo econômico não sustentável, a resposta individual deve ser a busca pela sustentabilidade financeira pessoal, através de renda maior e dívida controlada.

As famílias que conseguirem inverter a lógica de "consumir para pertencer" para "investir para prosperar" serão as que sairão fortalecidas desta crise. O foco deve ser a construção de um futuro financeiro sólido, e não a manutenção de uma imagem social custosa.


🌐 Tá na rede, tá oline

"O povo posta, a gente pensa. Tá na rede, tá oline!"

As redes sociais são um termômetro da crise da classe média. O que se vê são posts de viagens e aquisições parceladas em 12, 24 ou 48 vezes, celebrando um estilo de vida que, na realidade, está sendo financiado com juros extorsivos. A cultura do lifestyle digital cria uma pressão por performance e consumo que ignora a realidade econômica. O sucesso é medido pela próxima compra, e não pela reserva de emergência.

A ironia é que a mesma rede que expõe essa pressão também serve de plataforma para a educação financeira. Muitos influencers e especialistas estão usando a internet para desmistificar o crédito, ensinar a negociar dívidas e mostrar que a verdadeira riqueza está na liberdade de escolha e não na ostentação financiada. É fundamental que o leitor da classe média use as redes sociais com criticidade, buscando informação embasada em vez de apenas seguir o fluxo do consumo.


🔗 Âncora do conhecimento

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Reflexão final

A crise do endividamento da classe média é, acima de tudo, uma crise de perspectiva. É a falha em diferenciar o valor real da ilusão de consumo. O caminho para a verdadeira prosperidade não está na próxima prestação, mas na capacidade de dizer "não" ao impulso e de construir um futuro onde o salário trabalhe para você, e não o contrário. É tempo de resgatar o valor da poupança e da sobriedade financeira como pilares de uma vida plena e verdadeiramente livre.


Recursos e fontes em destaque/Bibliografia

  • Confederação Nacional do Comércio (CNC): Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) – Dados de 2024 e 2025 (múltiplas referências em Agência Brasil e CNN Brasil).

  • Febraban: Dados de Endividamento e Inadimplência das Famílias Brasileiras.

  • Serasa: Mapa de Inadimplência e Negociações de Dívidas no Brasil (Fevereiro/2024).

  • CNN Brasil e Agência Brasil: Reportagens sobre endividamento e juros.

  • Nexus: Pesquisa "A relação dos brasileiros com dinheiro" (Setembro/2025).


⚖️ Disclaimer Editorial

Este artigo reflete uma análise crítica e opinativa produzida para o Diário do Carlos Santos, com base em informações públicas, reportagens e dados de fontes consideradas confiáveis, como a CNC e o Banco Central. Ele visa oferecer uma visão embasada sobre a crise do endividamento. Não representa comunicação oficial, nem posicionamento institucional de quaisquer outras empresas ou entidades financeiras eventualmente aqui mencionadas. A decisão de investimento ou gestão de dívidas é de total responsabilidade do leitor.



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